terça-feira, 2 de junho de 2009

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Às vezes, quando era pequenina, não sabia distinguir acidente de incidente. Não sabia se era normal eu gostar de tirar sangue para fazer análises. Não sabia o que eram as estrelas, nem sabia se os livros para aprender Inglês eram feitos de propósito ou se eram livros de actividades de meninos ainda mais pequeninos ingleses. Às vezes, quando era pequenina, ninguém me sabia responder às questões que colocava. Teimava que o nome verdadeiro da Vanessa era Banessa, mas nós (os do meu infantário) só dizíamos Vanessa a brincar. Dizia que era do Futebol Clube do Porto porque o Porto tinha um café-restaurante, o que era novidade para mim. Achava imensa piada ao facto das coisinhas pretas do chão dos parques de estacionamento serem pastilhas elásticas e tinha um leitor de cassetes amarelo. Tinha uma colcha com um coelho e nas viagens grandes estava sempre a perguntar ao meu pai se estávamos a chegar e quando ele respondia não, perguntava quanto faltava. O meu pai respondia em quilómetros, e eu anuía com a cabeça e fingia que entendia. Quando era noite dizia que o Sol tinha ido para os chineses.
Agora não.
Agora sei distinguir acidente de incidente, sei que não era normal eu gostar de tirar sangue e sei o que são as estrelas. Sei que os livros para aprender inglês são feitos de propósito e que o nome da Vanessa se escreve com V. Já não digo que sou do Futebol Clube do Porto, agora raramente me perguntam de que clube sou. Já não acho piada as coisinhas pretas do chão e tenho um mp3 preto. A minha colcha é beige e quando o meu pai fala em quilometros eu percebo realmente. Agora sei que quando é noite o Sol não vai para os chineses. Agora já quase nada tem piada. Agora sei que gostava mais do meu Mundo quando sabia pouco.
Apesar de tudo, quando me perguntam o que é o monópolio comercial, ainda respondo que é um jogo de tabuleiro. Quando está Sol, ainda rodopio no passeio e quando o chapéu me foge ainda corro atrás dele. Ainda faço desenhos pequeninos, onde ninguém tem nariz, as caras são pálidas como a cal, os olhos são dois traços, as meninas têm sempre o cabelo esticado com uma ondinha no final e os meninos três pauzinhos a fazer de cabelo.Quando saio do banho ainda fico enrolada na toalha. Ainda tenho a minha flôr no pé esquerdo e ainda gosto de pinchonas e do Jardim da Celeste. Apesar de não me perguntarem, ainda sou do Futebol Clube do Porto porque o Porto tinha um café-restaurante, que não sei se ainda existe.
Às vezes, ainda vejo as coisas da mesma perspectiva. Não é uma má perspectiva, afinal.



Frase em estrangeiro:
Yesterday I found a shoelace and I put it around my head. It stills my lovely, evil shoelace, but now it is a hair ribbon (?) too.
Remember: Life's whatever you want.

4 comentários:

  1. Gostei bastante. É uma perspectiva do teu mundo e que ninguém pode copiar ou escrever semelhante. Genuíno e eficaz. É um bom pensamento.

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  2. Gostei muito, fizeste-me lembrar tanta coisa... As pessoas dizem-me sempre que eu nunca cresci e, sinceramente, nunca percebi qual era o problema de tal coisa; é perciso saber viver de uma maneira diferente, com outra perspectiva, e penso que o demonstraste. Se nunca deixarmos esmorecer a criança que fomos, a vida é tão melhor :)

    Já comentei 8D

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  3. Queria dizer preciso, acho que estou a ficar disléxica.

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